Jornal do Brasil
O filme em questão, Caderno B
Evaldo Mocarzel

Leve como um sábado de praia

Filmar o Rio é uma tarefa difícil para qualquer documentarista. A imagem da cidade já foi focalizada de tantos ângulos e maneiras, com propostas estéticas que vão do bairrismo ufanista à mais cruel vontade sensacionalista de inundar de violência a exuberância paisagística desse cenário maravilhoso entre o mar e a montanha. É realmente complicado encontrar um recorte inusitado nesse mosaico de praias verdejantes e tiroteios sanguinolentos.

Rio de Jano é, com toda certeza, um novo olhar sobre a vida carioca. Um olhar tocante, porque guiado por uma constante pulsação humanista, quase sempre o melhor caminho para qualquer documentário, diga-se de passagem. Os diretores Anna Azevedo, Eduardo Souza Lima e Renata Baldi são fãs da cidade, não dá para negar. Mas não se deixaram levar por aquela cegueira que costuma tomar conta dos cariocas mais xiitas, principalmente mineiros e gaúchos, que tendem a adotar o Rio com um furor fundamentalista assustador.

O crítico e ensaísta Jean-Claude Bernadet costuma dizer que não há alteridade em nenhum documentário, mas sempre ''euteridade''. Melhor dizendo: o documentarista está sempre colocando o próprio ponto de vista no filme, mesmo que esteja arduamente tentando projetar na tela a cultura do ''outro'', ou seja, do seu entrevistado. Rio de Jano é um belo exemplo de um exercício de alteridade bem-sucedido. Os diretores conseguiram focalizar a cidade e sua gente com a visão irreverente, engraçada, carinhosa e humanista do desenhista francês Jano.

Rio de Jano resgata uma cidade que parece um pouco esquecida no meio de tanta macumba para turista. O filme foge desta encruzilhada empobrecedora como o diabo foge da cruz. É interessante comentar que o diretor Marcos Bernstein e o diretor de fotografia Toca Seabra foram buscar inspiração na atmosfera de solidão dos quadros de Edward Hopper, riscados por brancos fachos de luz do sol, para filmar a Copacabana de O outro lado da rua sem tropicalizá-la de maneira caricata. É engraçado que a imagem do Rio tenha sido tão folclorizada que pontos de vista de estrangeiros afetuosos e clarividentes como Jano são uma espécie de alento para vermos a ''Cidade Maravilhosa'' sob novas luzes, menos carnavalizadas.

Rio de Jano é um documentário delicioso, que flui na tela como um sábado de praia, conduzido pela bela trilha de Lucas Marcier e Rodrigo Marçal. A direção de fotografia é assinada pelo mestre Mario Carneiro, em parceria com André Vieira. Programação obrigatória para brasileiros e estrangeiros que amam um Brasil que está muito além dos estereótipos que costumam encobrir a essência da vida carioca.

Evaldo Mocarzel
Cineasta, diretor de 'À margem da imagem'



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Jornal do Brasil
O filme em questão, Caderno B
Paulo Halm

Fina ironia sobre a Cidade

''O pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara''. Já ''o antropólogo Claude Levi- Strauss detestou a Baía de Guanabara'', pois ''pareceu-lhe uma boca banguela''. Usar o olhar de um estrangeiro quase sempre é um artifício inteligente de retratar e refletir o Brasil e nossa realidade. Através do outro conseguimos nos ver melhor. Assim como Caetano Veloso, são inúmeros os artistas, escritores, músicos, cineastas etc que se utilizaram do olhar do outro como um espelho para nossa reflexão. Até pela quantidade de ilustres forasteiros que por aqui descansaram suas retinas e sobre nós refletiram. Darwin, Manet, Theodore Roosevelt, Bernanos, Cole Porter, Sartre, Camus, Orson Welles... A lista é imensa. O Rio de Jano busca este reflexo através do olhar do desenhista francês Jano. O fato de ser um artista visual dá a este olhar uma dimensão metalinguística. Seu olhar é materializado quase que instantaneamente em seus esboços e rascunhos. O filme nos mostra Jano perambulando pelas ruas da cidade, tomando cerveja em pés sujos, subindo favelas, acompanhando o Mengão no Maracanã, deleitando-se com a cultura calipígia do brasileiro, conferindo popozudas num baile funk suburbano, andando de bondinho em Santa Teresa, visitando prostitutas na Vila Mimosa. Andando e olhando. Olhando e desenhando.

Percebemos nos desenhos de Jano (os esboçados e os já finalizados, que compõem o livro O Rio de Jano) uma fina ironia na captura de aspectos do nosso cotidiano, associada a uma sincera simpatia e solidariedade àqueles personagens que seus olhos vêem e sua caneta traça. É um grande observador, que impregna de humanidade suas caricaturas - e o fato de retratar pessoas com traços de animais paradoxalmente reforça este sentido humanista ­ apesar de uma personagem do filme, uma senhora que é retratada como bicho, achar isso algo estranho, pejorativo.

Apesar de muito agradável de assistir, o filme parece tímido diante das possibilidades que o tema - o olhar revelador/ crítico do estrangeiro - e o personagem - o sempre simpático Jano - oferecem. Se restringe a fazer um rafe (rascunho) do personagem, sem se aprofundar além da superfície do desenho. Parece ater-se à instantaneidade da captação, ao esboço e ao rascunho ligeiro, sem nunca chegar à arte final, ao retoque, às minúcias.

Se em alguns momentos o filme consegue estabelecer uma reflexão na questão do olhar estrangeiro, especificamente do francês no Brasil, quando faz uma ilação entre a obra de Jano e as pinturas de Debret (a blague do caçador de gatos do morro de São Carlos, é excelente neste sentido), na maioria das vezes parece estar mais satisfeito em usar Jano como um guia despreocupado que nos conduz por recantos mais ou menos conhecidos da cidade maravilhosa, sem que esse ''bater perna'' (em geral saudável, bom pros olhos e recomendado aos leitores), seja acompanhado por uma reflexão que amplie nosso olhar e nossa emoção.

É frustrante também perceber nessas caminhadas, reduzidos à condição de figurantes, as presenças do jornalista Zuenir Ventura (com fala) e do cineasta e desenhista Allan Sieber (sem fala). Fico imaginando o que o Zuenir, que tanto tem procurado entender este Rio dividido, retalhado, poderia dialogar com Jano e conosco. Da mesma forma, seria extremamente enriquecedor vermos um bate-bola entre Jano e Sieber, gaúcho radicado no Rio (e, de certa forma, com um olhar também forasteiro) cuja obra possui muitas confluências com a do francês.

Apesar disso, o filme revela-se extremamente carinhoso em relação à cidade e ao povo que sua câmera e personagem registram. Nesses tempos em que vemos nossa cidade tão maltratada pela violência, é reconfortante sabermos que, a despeito disso tudo, ainda somos uma cidade que a todo instante ergue o dedão num sinal de positivo. Ao flagrar este sinal, presente em quase todos seus desenhos, Jano consegue resgatar e traduzir nossa natureza cordial, quase esquecida, reprimida pela violência e miséria. E esse elogio à cordialidade, mesmo em tempos bicudos como os que vivemos, me faz esquecer as falhas que existem no filme e erguer também meu dedão, constatando que, apesar de tudo, ''valeu''.

Paulo Halm
Cineasta, roteirista de 'Dois perdidos numa noite suja'



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Nominimo.com
Ricardo Calil

O Rio de Jano continua sendo

20.02.2004 | O Rio de Janeiro do cinema também é uma cidade partida. De um lado, a auto-indulgência hedonista da zona sul, em filmes como "Bossa Nova" e "Como Ser Solteiro". Do outro, a fetichização da violência do morro e periferia, em "Cidade de Deus" e "O Homem do Ano". Dois universos que raramente se misturam nos filmes.

Nesse contexto, o documentário "Rio de Jano" funciona como uma espécie de Viva Rio do cinema, uma tentativa de ponte entre os vários mundos que compõem a cidade. Com uma diferença fundamental: no filme, a iniciativa não parte de um grupo autóctone, mas de um cartunista francês.

É curioso, e talvez um pouco preocupante, que a visão mais acurada sobre o Rio de Janeiro do cinema brasileiro recente seja a de um estrangeiro. Mas, se isso serve de consolo, não se trata de um estrangeiro qualquer. Jano é um Debret pop. Certamente não pelo estilo, mas pela atenção aos detalhes do cotidiano. E, como se sabe, a alma carioca está nos detalhes.

O documentário, dirigido por Anna Azevedo, Eduardo Souza Lima e Renata Baldi, é um making of do caderno de viagem que Jano (pronuncia-se Janô), famoso como criador do rato Kebra, fez sobre o Rio de Janeiro.

No filme, Jano circula por lugares que muitos cariocas desconhecem: o jongo da Serrinha, o funk de Rio das Pedras, o boteco de Guaratiba, a rua do Vidigal. Mas o que garante a originalidade de sua visão não são os caminhos que ele percorre, e sim seu poder de observação.

Há duas cenas que exemplificam muito bem essa minúcia do olhar. Em uma delas, Jano comenta um desenho que fez sobre Copacabana, em que um turista é abordado por um jovem engraxate. "O cara está de chinelos, mas o menino vai encher do mesmo jeito". Na outra, ele ironiza a obsessão por diminutivos em um país marcado pelo gigantismo. "O que são cinco minutinhos? São minutos de 50 segundos?"

Como se vê, o olhar de Jano combina harmoniosamente a intimidade do carioca com o estranhamento do estrangeiro. Mas sem a complacência do primeiro e sem o deslumbramento do segundo.

Evitar uma visão turística da cidade é uma obrigação que Jano se impõe a todo momento: seu Pão de Açúcar fica ao fundo de uma praia de Botafogo infestada pela sujeira; sua Copacabana é freqüentada por bandidos e prostitutas. Se os seus desenhos não têm a pureza do cartão-postal, é porque o sempre impuro elemento humano ganha mais relevância do que a paisagem.

Jano se distancia, assim, de uma certa tendência francesa de ver o Brasil como um paraíso tropical. O que talvez se explique por sua origem proletária, distante do imaginário burguês. Seu ponto de vista não sofre de afetação ou intelectualização.

Os personagens são sempre retratados como animais de traços simples. E a metáfora de seu zoomorfismo é direta: os malandros aparecem como lobos, as mulheres são gatas e assim por diante. Mas o talento de registrar os pormenores da cidade não deixa seu trabalho cair na obviedade. E garante seu interesse para além dos fãs dos quadrinhos ou da obra do cartunista.

Os méritos dos diretores do documentário - e também dos diretores de fotografia Mário Carneiro e André Vieira - não são menores do que os de Jano. E o principal deles é a generosidade de deixar um estrangeiro apresentar-lhes sua cidade, de descobri-la através de um outro olhar.

É o mesmo tipo de abertura que o espectador deve ter em relação ao filme, em cartaz agora no Rio de Janeiro. E o carnaval me parece um momento ideal para assisti-lo, já que esta é a hora em que se cristaliza a visão mais turística, mais oficial da cidade. No cinema pelo menos, não poderia haver um antídoto melhor contra isso do que "Rio de Jano".

Ricardo Calil/nominimo.com



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O GLOBO
Rio Show
Por Arnaldo Bloch
05/02/2004


"com humor e talento, os diretores fizeram o mais carioca dos documentários sem jamais cair no pcado de ser chato"
. Arnaldo Bloch

Ele é 'carrriôca'
Arnaldo Bloch


"Rio de Jano". é muito, muito difícil fugir do clichê ao retratar o Rio de Janeiro, ainda mais num documentário. Ou bem se cai na exaltação e no oba-oba, ou bem se chafurda na lama do denuncismo. Ou, ainda, pode-se escorregar num experimentalismo que transfigura a cidade a ponto de torná-la irreconhecível.


Os estreantes Anna Azevedo, Renata Baldi e Eduardo Souza Lima foram buscar o olhar de um francês para fazer o mais carioca dos documentários: "Rio de Jano". O desenhista Jano, conhecido no mundo dos quadrinhos por seu personagem Kebra (um rato pop) e por seus "Cadernos de viagem" (álbuns ilustrados com as impressões do artista, um dos quais dedicado ao Rio) é um francês diferente do estereótipo: filho de operários, morador de um subúrbio pobre de Paris. E que une o saber do estrangeiro ao sabor de quem se mistura com o povo sem constrangimento.


Durante 51 dias, Anna, Renata e Eduardo acompanharam Jano à medida que ele ia criando as pranchas de seu álbum carioca. Com humor e talento, o trio e a câmara descobrem um personagem indissociável da paisagem humana da cidade, que repensa o Rio como poucos cariocas sabem fazer. E sem jamais cair no pecado de ser chato.



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JORNAL DO BRASIL
REVISTA PROGRAMA
Por Rodrigo Fonseca
06/02/2004

De lentes ligadas nas peripécias do mais cool dos cartunistas franceses em solo carioca, Rio de Jano não vai mudar sua vida, sua percepção de cinema, nem a estética do documentário brasileiro. Ainda que seja uma delícia ver alguém explorar o gênero sem ficar pagando tributo, oferecendo hóstias e dizendo ''amém'' a Eduardo Coutinho, que apesar de ser o papa da coisa não precisa de toda a rasgação de seda que vem recebendo.
A verdade é que Anna Azevedo, Renata Baldi e Eduardo Souza Lima fizeram um filme bacana pacas sobre o olhar de um alienígena sobre a Cidade Partida. O trio respeita a objetividade cinejornalística e usa com bom gosto (sempre na hora certa) em cena a interpretação pictórica do desenhista francês para a babel brasilis. Posando de estrela, Jano por vezes dá uma de mané que tira onda de gatinho para a câmera.

Mas esse componente de sua personalidade - um quêzinho de vaidade sem afetações - apenas torna ainda mais vivo (e humano) o retrato que os cineastas pintam do personagem num filme que não deixa o ritmo cair. De todas as andanças do moço pela cidade, a jornada pela Feira de São Cristóvão é a melhor.



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Veja Rio
Recomenda
01/02/2004


Estréia na sexta (6) a declaração de amor de um gringo pela cidade, o documentário Rio de Jano. Dirigido por Eduardo Souza Lima, Anna Azevedo e Renata Baldi, o filme acompanha com acuidade e bom humor a visita do desenhista de quadrinhos francês Jano (pronuncia-se Janô) ao Rio em 2000. E registra a visão apaixonada do artista ao realizar um caderno de viagens sobre suas andanças. Claro que ele passeia por Copacabana, Maracanã e Lapa.

Mas também visita lugares menos comuns, como Paquetá, Madureira e a Feira de São Cristóvão. A fita mostra com detalhes o processo de criação de Jano (foto), o que inclui a naturalíssima interação do francês com paisagens, hábitos e pessoas cariocas. O resultado é um retrato carinhoso e inteligente do Rio.



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O Globo
Segundo Caderno
Por Mauro Ventura
05/02/2004

Filme faz retrato bem-humorado e pop da cidade

'Rio de Jano', que estréia amanhã, acompanha as andanças do desenhista francês e traça painel da alma carioca

Foi preciso que um estrangeiro viesse ao Brasil para que surgisse um filmeque retrata a alma carioca como poucos. "Rio de Jano" acompanha os passos do quadrinista francês em sua visita à cidade - para desenhar um caderno de viagem - mas não se resume a um making of de seu trabalho. Em sua estréia no longa-metragem, os diretores Eduardo Souza Lima, Anna Azevedo e Renata Baldi fizeram um crônica afetuosa e cheia de bossa do Rio. Ou, como preferem, "uma antropologia visual, bem-humorada e pop, do Rio de Janeiro e dos cariocas, do ponto de vista de um desenhista francês". Jano, de 49 anos, não é um estrangeiro comum. Não tem a visão encantada e idílica, que vê a cidade como um éden tropical, nem o olhar demonizado e cheio de clichês, que enxerga o Rio como um antro de violência e um paraíso sexual. Sabe que a cidade tem pecados "inumeráveis", como diz, mas também vê suas muitas qualidades. Cabem vários filmes - e, portanto, vários públicos - em "Rio de Jano", que estréia amanhã. O fã do inventor do rato Kebra vai conhecer os bastidores de seu processo de criação. Jano fotografa, toma notas e faz esboço das cenas, que serão desenhadas mais tarde em seu ateliê na França. Quem estiver de mal com a cidade vai se reconciliar ao ver as belas imagens - fotografadas por Mário Carneiro - e ouvir a variada trilha sonora - que vai do rock e do funk ao samba e ao choro. E mesmo o carioca típico vai se surpreender com a riqueza do olhar de Jano. Em seus 50 dias na cidade, ele captou a atmosfera dos bairros e traços característicos dos moradores. Um dos desenhos retrata um turista que é abordado por um engraxate em Copacabana. Ele está sem sapato, "mas o moleque vai perturbar assim mesmo", diz, com humor. O filme segue as andanças de Jano por locais tão distintos quanto o Maracanã, a Feira de São Cristóvão, os Arcos da Lapa, a Vila Mimosa, a Favela do Vidigal e Madureira. O espectador é apresentado às paisagens e a seus personagens, e logo em seguida os vê retratados nos desenhos de Jano. O diálogo que se estabelece entre desenho e realidade é um dos muitos achados do longa, produzido pela Hy Brazil. Hoje à noite, no Arco do Telles, um telão passará o trailer, enquanto serão distribuídos ingressos para o filme. O quadrinista foge do óbvio, dispensa os cartões-postais e, quando os retrata, acrescenta sempre sua divertida visão de mundo. O Pão de Açúcar de Jano não difere muito dos desenhos de Debret e outros retratistas do século XIX. Ele está lá, dominando a paisagem. Mas, a seus pés, está a praia coberta de lixo, o vendedor ambulante, o catador de latinhas, os banhistas. "O Pão de Açúcar é um clichê, mas não dá para negá-lo. Vou tentar dis- torcer um pouco a visão habitual, turística", explica. "Não faço uma coisa neutra. Faço algo que denuncia. Sempre tem um pouco de cinismo, de ironia e de paródia no que eu faço." Como de hábito, os desenhos de Jano trazem personagens com caras de bicho. Os executivos que vão paquerar na sexta à noite têm rosto de urubu e os meninos que se penduram do lado de fora do bondinho de Santa Teresa são como "pequenos leopardos". Jano tinha convite para vir ao Rio este mês, mas uma hepatite adiou os planos. Ele pretende voltar no fim do ano. - Estou com saudades do clima, que é soberbo, da luz, das pessoas e da dimensão das coisas, que impressionam pela grandeza - diz, por telefone, de seu ateliê em Paris.



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VALOR ECONÔMICO
Suplemento de Cultura
Por Denise Lopes

30/01/2004

Foi preciso que um estrangeiro viesse ao Brasil para que surgisse Arte Os registros de viagem do cartunista e ilustrador francês sobre a cidade carioca transformam-se em documentário pelas lentes de três jovens cineastas brasileiros

O Rio de Jano na tela

Jean le Guay, ou simplesmente Jano, é um dos expoentes do que anos 80 ficou conhecido como movimento underground BDRock (leia-se BD como bande dessinée, designação francesa para quadrinhos). Kebra, seu personagem mais famoso, ainda deixa saudade. Quadrinista, cartunista, ilustrador e viajante, ele deu com os costados, em outubro de 2000, no Rio de Janeiro. Como um Debret ou um Rugendas pop do século XXI, veio produzir um ´Caderno de Viagem´ a exemplo do que já havia feito na ÁE;frica, Índia e Paris. O livro, que inclui 30 trabalhos em aquarela e nanquim, batizado de ´Rio de Jano´, está na terceira edição no país e corre mundo.

Agora o livro vira filme. "Rio de Jano" estréia no dia 6 no cine Odeon, no Rio, com direito a uma mostra dos desenhos de Jano. Os diretores estreantes em cinema, Anna Azevedo, Eduardo Souza Lima e Renata Baldi acompanharam o artista na aventura de capturar em desenhos a intimidade e as nuances do Rio. O resultado é um documentário bem-humorado e impregnado do que se costuma chamar de "alma carioca". Já vendido para o mercado mexicano, será inscrito num festival de cinema de Paris.

Do subúrbio de Arcueill, em Paris, onde nasceu há 49 anos, Jano, prêmio em Angoulême, maior festival de quadrinhos do mundo, falou ao Valor sobre o filme, seu novo desafio em cinema - um longa de animação sobre Robert Johnson - e seus desejos.

Valor: Você assistiu ao filme ´Rio de Jano´? Ele é fiel ao espírito de seu livro?

Jano: Vi em vídeo. Ele é fiel ao que tínhamos em mente. Escolhi as locações, fiz croquis preparatórios e me impregnei do espírito da cidade. Finalizei três trabalhos no Rio e terminei o resto em casa.

Valor: Como foi visitar os lugares e desenhar acompanhado da parafernália de cinema, equipe e de três diretores?

Jano: Não foi sempre fácil, mas em contrapartida facilitou o conhecimento dos lugares, abriu portas e favoreceu contatos.

Valor: Você foi a locais inusitados para um turista e até mesmo para alguns moradores da cidade. Subiu favelas, tomou cerveja no Bar Budo, em Pedra de Guaratiba, passeou por Madureira, Paquetá, Vila Mimosa... Que local o surpreendeu mais?

Jano: As favelas. Por causa da miséria e da violência, mas também pelos encontros calorosos com seus habitantes.

Valor: Uma das cenas engraçadas é de uma senhora que reclama que não quer ficar com cara de bicho no desenho. Quando surgiu a idéia de utilizar esse recurso?

Jano: Quando ela foi entrevistada, ainda não tinha visto meus desenhos. Eu faço cabeças animalescas há 25 anos. A idéia vem de todos os personagens de animais que existem nos quadrinhos. Não inventei nada. Somente utilizei o código do desenho em quadrinho para criar meus próprios personagens. O que pode espantar é que geralmente se pensa que personagens animalescos são só para crianças.

Valor: Quais serão as próximas cidades a ganhar álbuns?

Jano: O Roberto Ribeiro (editor da Casa 21, que publicou ´Rio de Jano´ no Brasil) gostaria de me dar São Luiz do Maranhão para fazer. Mas teria que ser mais tarde. Os ´Cadernos de Viagem´ não são minha atividade principal. Quadrinhos me ocupam mais.

Valor: Seu último trabalho foi "Les fabuleuses dérives de la Santa Sardinha"?

Jano: O capítulo dois de "Les fabuleuses dérives de la Santa Sardinha" é meu último álbum, saiu em 2003. É a história das caravelas portuguesas e dos descobrimentos. Me divirto em passear por lugares onde os portugueses chegaram antes da história oficial. Me interessa mostrar o choque entre povos, as incompreensões, os equívocos... Me inspirei em histórias verdadeiras, recriando-as com humor.

Valor: Até onde vai a influência confessa pelo Crumb?

Jano: No início, ela era muito importante. Hoje é menor. Gosto de tudo no seu trabalho.

Valor: Como é o trabalho de animação que você faz sobre o músico Robert Johnson, do Mississipi? Este é seu primeiro trabalho para o cinema?

Jano: Fiz dois filmes pequenos de animação para TV. Este é um longa. Robert Johnson era um homem do blues itinerante, símbolo de uma geração, que não quis trabalhar nos campos de algodão. Faço a preparação gráfica do filme. É uma produção francesa e o roteiro é de Jean Luc Fromental.

Valor: Este trabalho casa com seu lado musical. Você ainda toca gaita com Les Hommes du President (banda de desenhistas franceses)?

Jano: Escuto blues há mais de 30 anos. Gaita toco de tempos em tempos, com pessoas que encontro. Les Hommes... se separaram em 1998.

Valor: Quais os seus desejos e projetos?

Jano: Desejo que produtores, editores e outros piratas tratem os autores corretamente. Novo projeto? O filme que faço toma todo meu tempo.



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ContraCampo
Por Cleber Eduardo

" Poucas vezes o cinema filmou a cidade com tanto afeto e sem folclorizações/mistificações como nessa surpreendente obra de estreantes em longa-metragem."


Rio de Jano
de Anna Azevedo, Eduardo Souza Lima e Renata Baldi

O Rio de Janeiro não é apenas cenário destacado do cinema brasileiro, mas espaço geográfico onde muitos personagens afirmam um estilo de vida, o carioca, voltado para o prazer e para o drible nas dificuldades. Esse cariocismo expresso nas telas quase sempre celebra as maravilhas naturais e a vitalidade humana da cidade, com homens cheios de ginga na abordagem das mulheres e mulheres cheias de molejo ao serem abordadas pelos homens. Essa identidade do carioca que sabe viver é vinculada sobretudo à Zona Sul, com seus bares barulhentos, praias infestadas de corpos esculturais, de se desenrolam as azarações e as dores dos amores, tema principal dessa vertente ensolarada da produção. Mas nem tudo é Pão de Açúcar e Arpoador. Também há um outro Rio muito filmado pelas câmeras, o do morro e das favelas, no qual os conflitos afetivos dão lugar aos confrontos armados. Na maioria dos casos, esses opostos não se cruzam, ou, quando fazem esquina um com o outro, a intersecção é exposta de forma dicotômica. Predomina a idéia de uma cidade partida, mostrada por um ângulo, pelo outro ou pelo choque de um contra o outro.
Nesse sentido, Rio de Jano, é uma novidade. Ao acompanhar o cartunista francês Jano, durante uma de suas passagens pela cidade, o trio de realizadores apóia-se no olhar estrangeiro para, sempre mediados por seus próprios olhares da gema, revelarem a multiplicidade do Rio e da carioquice. Vemos uma cidade cerzida, heterogênea, composta de Pão de Açúcar e de Maracanã, mas também de São Cristovão e Madureira, de terreiro de umbanda e de porão de rock, de feira cultural em Laranjeiras e das ladeiras do Vidigal, de roda de samba em botquim e de show de funk em Rio das Pedras.
Faz-se assim uma desmistificação de um carioquismo redutor e às vezes calhorda, arrotado por alguns filmes em uma afirmação de superiodade regionalista montada como um discurso de convencimento de carioca para carioca. Em Rio de Jano, não há essa auto- afirmação. A identidade da cidade e dos moradores está nos ambientes e nas pessoas, na forma de falar e no humor, na falta de formalidade para ser sincero sem deixar de ser cordial. A cidade fala por si sem precisar ninguém dela falar por ela. O Rio e o carioca surge naturalmente sem ser tematizado.
Jano interage com a cidade e seus moradores enquanto colhe referenciais para seus desenhos. Encanta-se com o culto à bunda das popozudas, fica fascinado com as cores do Flamengo, toca gaita em show de rock. Acha curioso e engraçado que, em um país de proporções gigantescas, há fixação por dimitivos. "O que são cinco minutinhos? Minutos de 50 segundos"?, pergunta e ri. Guiando-se pelas impressões dele sobre lugares visitados por escolha da produção, os realizadores usam o olhar de fora para olhar melhor para seu próprio meio. A capacidade de observação de sutilezas de Jano, seja nos desenhos, sejam em suas entrevistas, é refletida pelas imagens do filme, seja na decupagem da riqueza gráfica de cada trabalho, seja na colocação da câmera em determinados locais. Por ser tão harmônica a integração do observador no universo oservado, o filme cai quando abandona o Rio e fecha foco em Jano. Talvez seja um procedimento necessário, conceitualmente, para melhor situar o espectador em relação ao artista, mas, coerência à parte e sendo coerente com o título, Rio de Jano é bom mesmo quando Jano funde-se ao Rio. Poucas vezes o cinema filmou a cidade com tanto afeto e sem folclorizações/mistificações como nessa surpreendente obra de estreantes em longa-metragem.



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O Globo
Segundo Caderno
03/10/2003
Por Arnaldo Bloch

" Um riquíssimo painel documental sobre um Rio inusitado. "

Francês mostra como é gostoso o Rio de Janeiro

Documentário 'Rio de Jano' vê artista como um Debret pop que se apaixona pela cidade

"Rio de Jano", documentário dos estreantes Anna Azevedo, Eduardo Souza Lima e Renata Baldi, poderia ser apenas um filme sobre o processo de criação do artista francês Jano, que, durante 50 dias, no fim de 2000, retratou a cidade. Herdeiro pop da tradição de artistas viajantes como Debret e Rugendas, Jano - criador do rato Kebra, ícone dos quadrinhos e do rock franceses - construiu, a partir de sua visita ao Rio, mais um livro de sua série "Cadernos de viagem". O filme será exibido hoje, às 17h, no Odeon, e amanhã, às 16h30m, na Casa de Rui Barbosa.

Por mais que essa fosse a proposta do filme, seus diretores acabaram, voluntariamente ou não, descortinando um riquíssimo painel documental sobre um Rio inusitado, a ponto de, em alguns momentos, Jano transformar-se apenas numa voz narradora, a descrever e teorizar sobre Vila Mimosa, Paquetá, Pedra de Guaratiba, Maracanã, Lapa ou Feira de São Cristóvão, enquanto a câmera (tão detalhista quanto os traços do artista) do veterano Mário Carneiro, em parceria com André Vieira, perscruta a cidade.

Desta forma, "Rio de Jano" converte-se em dois filmes: um sobre Jano, artista, personagem, informal pensador; outro sobre um Rio que, a despeito de sua violência, é predominantemente belo, criativo, inteligente, honesto e engraçado. O mais difícil: fazer isso sem ranço de maquiagem turística e ao abrigo do denuncismo fácil. Esses dois filmes combinam-se à medida que Jano reage à cidade, e esta responde ao antenado gringo, numa rara simbiose antropofágica de mão dupla.



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Veja Rio
Por Rogério Durst

Perdidos na enxurrada de filmes

Atrações discretas para fugir das salas lotadas

Prossegue o Festival do Rio e nessa altura os ingressos para os filmes mais badalados já foram disputados por espectadores mais afoitos. Mas sempre há opções num festival deste tamanho, atrações escondidinhas, filmes interessantes perdidos na enxurrada de títulos. Um exemplo é o simpático documentário Rio de Jano (Odeon, sexta (3), 19h). Dirigido por Eduardo Souza Lima, o Zéjosé, Anna Azevedo e Renata Baldi, o filme acompanha a visita do desenhista de quadrinhos francês Jano ao Rio em 2000. E registra a visão apaixonada do moço ao realizar um caderno de viagens sobre suas andanças. Claro que tem Copacabana, Maracanã e Lapa. Mas também tem Paquetá, Madureira e Feira de São Cristóvão. Junto com Moro no Brasil (Estação Botafogo 1, domingo (5), 14h), do finlandês Mika Kaurismaki traz uma visão apaixonada do Rio, cada vez mais rara. Outro escondido que merece destaque é Tortura Selvagem: a Grade (Estação Botafogo 3, sexta (3), 15h, e domingo (5), 22h), homenagem à Afonso Brazza, diretor, roteirista, produtor, montador, fotógrafo e ator, um bombeiro de Brasília, apaixonado por cinema de ação, que realizou na marra oito filmes antes de morrer em julho deste ano. Este policial estrelado por ele, claro, tem participação de Zé do Caixão e trilha dos Raimundos. E temos também toda uma mostra escondida numa das salas mais discretas do festival. O Centro Cultural da Justiça Federal, na Cinelândia, abriga clássicos de Orson Welles como o assustador O Processo, a raridade Badaladas à Meia-Noite e até curiosidades como ao visita do inventor do cinema com assinatura ao popular programa cômico de TV I Love Lucy.



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Críticos.com.br
Por Carlos Alberto de Mattos
30/9/2003

" Enquanto tentava capturar o espírito da cidade, o artista se transformava à imagem e semelhança dela."

O Artista e a Cidade

O cartunista francês Jano (pronuncia-se Janô) tem a profissão que muita gente pediu a Deus: é pago para viajar pelo mundo desenhando o que vê. Autor de carnets de voyage dedicados à áfrica e a Paris, ele desembarcou no Rio em fins de 2000 para um novo trabalho do gênero. Um trio de documentaristas acompanhou seus passos, numa espécie de making of do livro (publicado na França em setembro de 2001 pelas edições Albin Michel).

Mas Rio de Jano não se limita ao registro. Além de recontar boa parte da trajetória anterior do desenhista, um dos mais importantes da atualidade, o filme apropria-se do olhar estrangeiro de Jano para rascunhar observações sobre o modo de vida carioca, aí incluídos hábitos verbais e gestuais, e as divertidas contradições que fazem a personalidade da cidade. Jano condensa a vida popular em cenas de grande poder sugestivo. Suas figuras humanas de caras animalizadas fazem um comentário constante dos tipos que se encontram pelas ruas. Ele contrabalança a visão romântica que os franceses bem-pensantes nutrem a respeito do Rio (e, por falsa extensão, do Brasil) com uma atenção minuciosa para os detalhes que denunciam a inexistência de um certo paraíso à beira-mar. Uma praia pode aparecer coberta de lixo, assim como um grupo diante de um bar pode combinar sensualidade, melancolia e miséria numa mesma aquarela.

O documentário tem um aspecto "doméstico" que ora contribui para uma aproximação mais íntima do personagem, ora corteja a mera superficialidade (a visita a uma casa de rock, por exemplo). Entre as maiores qualidades do filme está a ponte que estabelece entre a realidade (magnificamente fotografada por Mario Carneiro) e os desenhos de Jano.

Fica claro como se produz o realismo pormenorizado das pranchas, acrescido da liberdade - impossível para um fotógrafo - de sintetizar elementos de vários tempos e lugares numa única cena.

Particularmente reveladora é a seq?ência rodada com Jano em sua casa, na França, três meses após o retorno. Jano parece outra pessoa, muito mais introvertida e pessimista que à época de sua estada no Rio. Talvez esteja ali a essência do que esse simpático documentário pretende mostrar: enquanto tentava capturar o espírito da cidade, o artista se transformava à imagem e semelhança dela.



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Folha de S.Paulo
Ilustrada
Por Diego Assis
29/10/2003

ANONIMOS SALTAM DOS GIBIS PARA O CINEMA

Referir-se a "Anti-Herói Americano" e "Rio de Jano" como "os dois filmes de HQ" que vieram à 27» Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é por demais simplista, secundário até.

"Anti-Herói Americano" teve o mérito de, sem muito esforço de divulgação e sem se apoiar em um personagem rentável da Marvel Comics, por exemplo, haver recebido o grande prêmio do júri do último Festival de Sundance.

Isso apoiando-se no mote "a vida de um sujeito comum é algo bastante complexo".

"Rio de Jano" não foge muito a essa mesma linha. Escolhe acompanhar de perto a passagem do cartunista underground francês Jano pelo Rio de Janeiro, em 2000.

Familiar, talvez, para alguns poucos colecionadores de gibis da década de 80, Jano passeia despercebido pelas ruas do Rio, tirando fotos e fazendo anotações --os únicos que reconhecem o cartunista são um turista iraniano radicado na Suíça e uma senhora do morro de São Carlos que havia assistido a uma reportagem do "Fantástico" sobre Jano.

Mais do que quadrinhos propriamente ditos, portanto, "Rio de Jano" reproduz o olhar curioso do artista sobre o povo e o modo de vida dos cariocas, da cervejinha na mesa de bar ao assédio das prostitutas na praia de Copacabana, da urbanização irregular dos famosos arcos da Lapa a um Pão de Açúcar poluído e nem tão "maravilhoso" quanto o fizeram crer tantos gringos que por aqui passaram em séculos anteriores.

Um olhar sincero, bem-humorado e, como sempre nos trabalhos do cartunista, animizado.



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BLOG Colunistas de o Globo
Antonio Carlos Miguel
8/10/2003

O Q GOSTO é DE MÚSICA (e de cinema, literatura...)

Lembro-me da frase de Hélio Oiticica: "O q faço é música". Mas no jornalismo cultural também temos que volta e meia falar sobre mercado, direito autoral, pirataria e demais temas que nos tiram de nossa paixão principal.
Há dias que pretendia comentar o maravilhoso documentário longa-metragem "Rio de Jano", exibido sexta-feira passada no Odeon, dentro da Premiére do Festival do Rio. Jano é um cartunista francês que esteve por aqui há três anos, para um álbum de viagens sobre a cidade (repetindo os que fizera sobre o norte da áfrica e Paris) e teve seus passos acompanhados pelo trio de diretores Anna Azevedo, Eduardo Souza Lima e Renata Baldi. Passando ao largo de uma visão cartão-postal do Rio, Jano mergulha fundo na alma carioca, das favelas aos subúrbios, dos pés-sujos do Centro aos quiosques da Avenida Atlântica ou a espelunca roqueira Garage, na Rua Ceará, na Praça da Bandeira. O filme também introduz a obra de Jano - um desenhista fabuloso, detalhista e criativo, e que sempre retrata os seres humanos com caras de diferentes bichos - e faz um paralelo entre seu livro de viagem e o trabalho que pintores como Debret e companhia fizeram nos séculos XVIII e XIX.